A Renda Fixa só é fixa se você levar o título até o vencimento. Antes disso, ela oscila como uma ação.
Muitos investidores entram no Tesouro Direto buscando o “porto seguro” e se assustam ao ver o saldo negativo no extrato. Esse fenômeno não é um erro do banco; é a Marcação a Mercado em funcionamento. Assim, entender essa engrenagem é a diferença entre entrar em pânico e conseguir antecipar lucros que levariam anos para acontecer.
Resumo Rápido: O que você precisa saber
- O que é: É o preço que o mercado aceita pagar pelo seu título hoje, caso você decida vendê-lo antes do prazo.
- A Gangorra: Existe uma relação inversa matemática — quando a taxa de juros sobe, o preço do seu título cai. Quando a taxa cai, o preço do seu título sobe.
- A Oportunidade: Ao investir quando as taxas estão altas, você se posiciona para lucrar com a valorização do título assim que os juros começarem a cair.
O que é Marcação a Mercado?
A Marcação a Mercado é, em termos simples, o preço de revenda do seu título. É o valor que o mercado aceita pagar por ele hoje, caso você decida sair do investimento antes do prazo de vencimento.
Pense no título de Renda Fixa como um contrato de promessa de pagamento:
- Você empresta dinheiro para o Governo ou para um Banco.
- Eles prometem te devolver o valor com juros em uma data específica (o vencimento).
Para entender a lógica da Marcação a Mercado, imagine um Contrato de Aluguel:
Você possui um contrato onde um inquilino se compromete a te pagar R$ 5.000 por mês durante 5 anos.
- Cenário A (Juros Caem): Se os aluguéis na vizinhança caírem para R$ 2.000, o seu contrato de R$ 5.000 vale ouro. Portanto se você decidir vender esse contrato para outro investidor, ele vai aceitar te pagar um valor muito alto (um prêmio) para ter o direito de receber esses R$ 5.000.
- Conclusão: A taxa de mercado caiu → O preço do seu contrato subiu.
- Cenário B (Juros Sobem): Se os aluguéis na vizinhança subirem para R$ 10.000, o seu contrato de R$ 5.000 ficou “ruim”. Para alguém aceitar comprá-lo de você, você terá que vendê-lo por um preço muito mais baixo (com desconto).
- Conclusão: A taxa de mercado subiu → O preço do seu contrato caiu.
Na Renda Fixa é exatamente assim: O seu título é um contrato com uma taxa travada. Se o mercado passa a oferecer taxas melhores, o seu título antigo desvaloriza. Se o mercado passa a oferecer taxas piores, o seu título antigo vira um tesouro cobiçado.
A Lei Inversa da Marcação a Mercado: A Gangorra dos Juros
Na Renda Fixa, existe uma regra matemática imutável que todo investidor precisa tatuar no cérebro:
Quando a taxa de juros SOBE, o preço do título CAI. Se a taxa de juros CAI, o preço do título SOBE.
Por que isso acontece?
O mercado sempre ajusta o preço dos títulos antigos para que eles rendam a mesma coisa que os títulos novos.
O mecanismo é simples:
- Imagine que você tem um título que paga 10% ao ano.
- De repente, a economia muda e o governo começa a emitir títulos novos pagando 15% ao ano.
- Ninguém vai querer comprar o seu título de 10% pelo preço cheio, já que há opções melhores na “prateleira”.
- Para você conseguir vender o seu título hoje, terá que dar um desconto no preço.
O contrário também é verdade: se o seu título paga 10% e o mercado passa a pagar só 5%, o seu título vira um artigo de luxo e o preço dele dispara.
Simulação Real da Marcação a Mercado: O Poder do 1%
Para entender o potencial de lucro (ou prejuízo) da marcação a mercado, você precisa conhecer um conceito chamado Duration (Duração).
Pense nela como um multiplicador: quanto maior o prazo do seu título, maior será o impacto de qualquer mudança na taxa de juros sobre o preço dele.
Para entender melhor, vamos simular um título do Tesouro IPCA+ com 10 anos para o vencimento (como um Tesouro IPCA+ 2035), comprado hoje com uma taxa de 6% ao ano (+ inflação).
Abaixo um gráfico com uma simulação e em seguida a explicação, a partir de 3 cenários.
Como ler o gráfico:
- Eixo Horizontal (Baixo): Representa a taxa de juros. Note que quanto mais para a ESQUERDA (taxas menores), mais ALTO o gráfico sobe (maior o preço do título).
- Eixo Vertical (Lado): É o seu dinheiro.
- A Curva: Ela mostra que a relação não é uma linha reta; o ganho na queda das taxas tende a ser maior do que a perda na subida.
Cenário 1. O Ponto de Partida (6%)
Você compra o título quando a taxa de mercado é 6% ao ano.
- Preço do Título: R$ 558,39.
- Se você carregar até o final, esse valor crescerá de forma constante até o dia do vencimento. Não há prejuízo.
Cenário 2. O Lucro Explosivo (Queda para 5%)
Se a economia melhora e a taxa de mercado cai apenas 1% (de 6% para 5%):
- O valor do seu título no mercado salta para R$ 613,91.
- Ganho Imediato: +9,94%.
- O “Pulo do Gato”: Você ganhou em poucos dias o que levaria quase um ano e meio para ganhar esperando os juros caírem na conta. Isso é o que chamamos de “antecipar lucros”.
Cenário 3. O Prejuízo Temporário (Subida para 7%)
Se o risco país aumenta e a taxa de mercado sobe 1% (de 6% para 7%):
- O valor do seu título cai para R$ 508,35.
- Perda Imediata: -8,96%.
- A Calma do Conservador: No extrato da sua corretora, seu saldo ficará “vermelho”. Mas lembre-se: essa perda só se torna real se você vender o título agora. Se você não fizer nada e esperar o vencimento, o governo honrará os 6% combinados lá no início.
A regra de bolso é simples: Em títulos de longo prazo, cada 1% de queda na taxa de juros gera um ganho de capital (lucro) equivalente ao número de anos que faltam para o título vencer.
Trade em Renda Fixa: Como usar a marcação a mercado a seu favor
Fazer um “trade” (negociação) com marcação a mercado significa comprar um título não para receber os juros mês a mês até o vencimento, mas para vendê-lo com lucro antes do vencimento, quando a taxa de juros cair.
Para o investidor conservador, portanto, essa é a forma mais segura de buscar retornos de dois dígitos em pouco tempo. Veja como funciona a estratégia:
1. O Momento da Compra (O Ataque)
Você deve comprar títulos de longo prazo (como o Tesouro IPCA+ 2035 ou 2045) quando as taxas de juros estão em patamares historicamente altos.
- O Sinal: Geralmente, isso acontece em momentos de incerteza política ou inflação alta, quando o mercado exige prêmios maiores para emprestar dinheiro ao governo.
- A Meta: Travar uma taxa alta (ex: IPCA + 6,5% ao ano).
2. A Espera Estratégica
Depois de comprar, você aguarda o ciclo econômico virar. Quando a inflação cai e o Banco Central sinaliza que vai baixar os juros (Selic), as taxas de mercado dos títulos também começam a cair.
3. O Momento da Venda (A Realização)
Lembra da gangorra? Quando a taxa de mercado cai, o preço do seu título dispara.
- O Resultado: Você pode vender o título de volta para o Tesouro Nacional e embolsar, em um ou dois anos, o lucro que levaria dez anos para receber.
O Risco de quem não entende a marcação
A marcação a mercado é uma faca de dois gumes. Se ela pode antecipar lucros de anos, ela também pode mostrar prejuízos temporários que assustam o investidor desavisado.
O maior risco aqui não é o governo dar calote, mas sim a sua necessidade de liquidez no momento errado.
- O Perigo do Curto Prazo: Se você investir um dinheiro que precisará daqui a 6 meses em um título de 20 anos (como o Tesouro IPCA+ 2045), e nesse meio tempo os juros subirem, seu saldo estará negativo. Se você for obrigado a vender para pagar uma conta, você realizará o prejuízo.
- A Regra de Ouro: Só use a marcação a mercado com o capital de longo prazo ou sua “Reserva de Oportunidade“.
- Onde colocar a Reserva de Emergência: Dinheiro de uso imediato deve estar sempre em ativos que não sofrem marcação a mercado, como o Tesouro Selic ou CDBs de liquidez diária. Neles, o seu saldo só caminha para a frente, todos os dias.
Lembre-se: A marcação a mercado é um “fantasma” que só te atinge se você sair antes da hora. Se você ficar até o vencimento, o contrato é honrado centavo por centavo.
Conclusão: Domine a oscilação
A marcação a mercado é o que separa os investidores passivos dos estrategistas. Ela transforma o que seria uma aplicação monótona em uma ferramenta poderosa de geração de riqueza.
O que você deve levar daqui:
- A volatilidade na Renda Fixa não é um erro, é uma oportunidade.
- Se você entende o ciclo de juros, pode lucrar com a queda das taxas.
- Se você busca apenas segurança, o vencimento do título é o seu melhor amigo — ele anula qualquer oscilação negativa.
O segredo não é evitar a oscilação, mas sim saber em qual lado da gangorra você está pisando.
📚 Para ir mais fundo
- E-book: Tesouro Direto na Prática – O guia completo para você sair da teoria e aprender, passo a passo, como comprar os títulos que permitem lucrar com a marcação a mercado.
- Histórico de Taxas do Tesouro Nacional – A ferramenta fundamental para o seu “Ataque”. Aqui você consulta se as taxas atuais são as maiores dos últimos anos.
- Calculadora do Tesouro Direto – Simulador de Marcação a Mercado do Tesouro Direto. Simule quanto seu título pode valer se a taxa cair, antes mesmo de investir seu primeiro real.
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Perguntas Frequentes sobre Marcação a Mercado
Isso acontece porque a taxa de juros do mercado subiu desde o dia em que você comprou o título. Como os novos títulos estão pagando mais, o seu título antigo “perde valor” para quem quiser comprá-lo agora. Mas fique tranquilo: esse prejuízo é temporário e só se torna real se você vender o título hoje. Se carregar até o vencimento, você receberá exatamente o valor contratado.
Sim, mas apenas se você vender o título antes do prazo de vencimento em um momento de juros altos. Se você mantiver o investimento até a data final, o risco de perda por oscilação de preço é zero, pois o contrato original é garantido pelo emissor (como o Tesouro Nacional).
Quanto maior o prazo de vencimento de um título, maior é a sua sensibilidade à marcação a mercado. Os títulos “campeões” de oscilação são o Tesouro IPCA+ de longo prazo (ex: 2045) e o Tesouro Prefixado. Títulos pós-fixados, como o Tesouro Selic, praticamente não sofrem esse efeito.
Você deve comparar a Taxa Contratada (a que você comprou) com a Taxa de Mercado atual. Se a taxa atual for menor que a sua, seu título valorizou e você está com lucro na marcação. Você pode conferir isso no extrato da sua corretora olhando o “Preço de Mercado” ou “Preço de Venda” atual.
Embora muitos a vejam apenas como um risco, ela oferece benefícios estratégicos:
1. Antecipação de Lucros: Permite que você ganhe em poucos meses o que levaria anos para receber, aproveitando ciclos de queda de juros.
2. Transparência: Você sabe exatamente quanto seu patrimônio vale “na palma da mão” se precisasse vendê-lo hoje, sem ilusões matemáticas.
3. Liquidez a Preço de Mercado: Garante que o título seja negociado por um valor justo e atualizado, permitindo que você saia de um investimento antigo para aproveitar uma
oportunidade melhor que surgiu agora.
A venda estratégica deve ser considerada em três situações principais:
1. Meta de Taxa Atingida: Quando a taxa de mercado do título cai para níveis muito baixos (ex: você comprou a IPCA+ 6% e hoje ela está em IPCA+ 4%). O potencial de valorização adicional torna-se pequeno comparado ao lucro já acumulado.
2. Fim do Ciclo de Queda: Quando o Banco Central sinaliza que o ciclo de cortes na taxa Selic está chegando ao fim. Sem novas quedas de juros, o preço do seu título para de subir.
3. Custo de Oportunidade: Quando você encontra outra oportunidade de investimento que projeta um retorno maior do que o que o seu título renderia se você o segurasse até o vencimento.